sábado, 6 de fevereiro de 2010

Mais um a sair impune???

 
Foto de Nagel Coelho. Imagem retirada do blogue "Cartunista Solda".
 Esta é a mensagem de um ex-deputado - renunciou para não ser cassado - que fez morrer os jovens Gilmar Rafael Yared e Carlos Murilo Almeida, em maio de 2009. Jovens estes que não receberam o agradecimento do "nobre" ex-deputado: afinal, o impacto com o carro onde eles estavam amorteceu a queda, evitando a morte certa de um homem que dirigia bêbado, com a carteira suspensa, como se estivesse num GP de Fórmula 1. A cabeça de um dos rapazes foi arrancada com o impacto e encontrada a mais de 100 metros do local do acidente. Aqui, não foi Deus quem lhe deu a oportunidade da vida.

Sei que o agradecimento da placa acima não é para mim, porque NUNCA vou rezar por uma pessoa como essa. Espero que a insustentável leveza da consciência humana e o martelo justiceiro da história popular caiam sobre seus ombros.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Caninos

Não existe dinheiro
e nunca existirá
para pagar
essa alegria gratuita
que você tem.

Fábio Pedro Racoski

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Bicho

Este sou eu.
Estranho,
ranzinza,
grosseiro,
amável,
silencioso
em voz alta.

Este sou eu.
Confuso,
imprevisível,
rude,
piadista,
cético
na fé.

Sou eu,
contraditório
por medo.
Sou eu,
mescla
de mal-humor,
tristeza,
e a necessidade
de estar
com você
que faz aumentar
minhas olheiras.

Fábio Pedro Racoski

sábado, 30 de janeiro de 2010

Vou-me embora de Pasárgada

Vou-me embora de Pasárgada.
Lá eu não sei quem é rei,
ainda que alguns tentem
arrumar plebeus
para chicotear.

Vou-me embora de Pasárgada.
Lá, a mulher que eu quero
é apedrejada, condenada
a viver nas sombras
dos becos.

Vou-me embora de Pasárgada.
Lá, a realidade não é real.
Lá, as pessoas são planas,
superficiais e traiçoeiras.
A fogueira das vaidades...

Vou-me embora de Pasárgada,
ainda que meus amigos
lá se afoguem
no rio de quem tenta
remar contra a correnteza.

Vou-me embora de Pasárgada.
A mãe d'água não existe.
O sonho acabou.
Quero o cimento sujo
e fedorento
das ruas cruéis
de minha vida real.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Vida substantiva

Maternidade, menino, enfermeiras, casa.
Periferia, descampado, pés, joelhos, sangue.
Escola, lanche, alfabeto, roxo, azul, vermelho.
Colégio, festa, professora, escuro, luzes.
Faculdade, trabalho, ônibus, terminal.
Música lenta, olhos, braços, boca.
Famílias, mãos, lábios, corpos, motel.
Anéis, viagem, sapatinhos de lã, hospital.
Olheiras, madrugada, Johnson & Johnson, termômetro, enfermeira.
Melodia, cama, noite, monstros.
Trabalho, rua, jornal, desespero.
Escola, portão, diretoria, conversa.
Toga, beca, lágrimas, satisfação.

Rugas, cinza, crianças, feriado.
Mulher, saudade, estado civil, solidão.
Histórias, memórias, lembranças, crianças, sorriso.
Família, capela, lágrimas, descanso.

Fábio Pedro Racoski

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Ser pobre é foda.
Mas que moda
de dizer-se fodido!
Fábio Pedro Racoski

Pianíssimo

Pianíssimo.
O calçado suspenso,
os passos de felino,
adentra a escuridão
ao encontro cretino.

Pianíssimo.
Uma cama lhe espera
repleta de sabores
doces suaves temperos
que acalmam seus temores.

Pianíssimo.
As estrelas assistem
risonhas, lá no céu,
o que sós iluminam
ao casal num bordel.

Fábio Pedro Racoski

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Choque

Uma dor,
daquelas que não tenho palavra,
percorre todo meu corpo.
Dos cabelos aos pés,
fazendo brotar
dez dores a mais.

É uma descarga elétrica
que me eletrocuta
a cada minuto.
E já não tenho energia
para combater estes volts.
Já não tenho potência
para vencer estes watts.
Tenho poucos ohms
para impedi-la de vencer-me.

Trêmulo, não vejo teu rosto.

Sou um homem-pilha
prestes a estourar
de desgaste e sofrimento.
Fábio Pedro Racoski

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Homo Musicalis


Não voamos como as águias,
mas fazemos voar.
Não saltamos como os gatos,
mas fazemos escadas.
Não corremos como guepardos,
mas fazemos rodas.
Não cantamos como os sabiás,
mas fazemos flautas.

Não somos belos como anjos,
não somos tudo como Deus.
Somos animais
com um cérebro fantástico
e dez dedos para dedilhar
magníficas teclas,
magníficas cordas.

Somos seres de música.

Fábio Pedro Racoski

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Vamos cantar para o Haiti

Vamos cantar para o Haiti.
Todos juntos, mão com mão,
numa corrente solidária,
levando aos miseráveis
ração, água, telhas de zinco
e muito carinho inútil.

Vamos cantar para o Haiti.
Aproveitemos a ocasião.
Está nos noticiários, nos jornais,
nas ruas, nas imagens.
E, daqui uns dias,
ninguém mais quer saber.

Vamos cantar para o Haiti.
Veja meu novo trabalho,
minha santidade, meu carisma,
minha solidariedade hipócrita.
Veja: eles precisam de ração.
Escola? Emprego? Humanidade?

Vamos cantar para o Haiti.
Afinal, todos queremos
um pouco dessa miséria
para fazer-nos santos.
Todos queremos mantê-los miseráveis
para o próximo grande evento.

Vamos, amigo: cante para o Haiti.
Na verdade, você canta ao diabo!

Fábio Pedro Racoski